Este é um relato feito por Orlando Castro Hidalgo, oficial dos Serviços de Inteligência cubanos, que desertou em Paris em 1971. O relato é feito na primeira pessoa e revela o drama de consciência do até então agente de cargo mais elevado que abandonou os ideais políticos do ditador Fidel Castro. O livro por ele escrito – “O Espião de Fidel Castro” – revela todo um vasto mundo de operações sigilosas. Orlando Castro Hidalgo primeiramente foi agente policial depois lutou, como soldado, na batalha de Baía dos Porcos e, finalmente, foi recrutado para trabalhar no Serviço de Inteligência. Serviu no Departamento Geral de Informações (DGI) e, quando desertou estava trabalhando na embaixada de Cuba na França, como diplomata, de onde retirou e levou consigo a maioria dos segredos que estavam em poder dos escritórios da DGI em Paris, revelando como esse órgão tem poder dominante sobre o Corpo Diplomático cubano, sobre os serviços da agência de notícias Prensa Latina e outras agências governamentais que negociam com outros países ou operam no exterior. Ele conta como Regis Debray foi cooptado e mandado para a Bolívia para enviar informações sobre as atividades guerrilheiras de Che Guevara como o DGI trabalha para a KGB e como opera nos EUA.
Orlando Castro Hidalgo, que hoje vive nos EUA com outra identidade, desertou ao concluir que a propaganda comunista e a realidade não se combinam.
O capítulo mais interessante de seu livro é aquele em que narra sua tomada de decisão de desertar:
“Desertar é alterar drasticamente a própria vida e a dos membros da família. Não é meramente abandonar uma ideologia ou trocar uma pela outra. Desertar é abandonar o passado, o país, os amigos. É jogar fora uma lembrança, o ambiente, as associações. A decisão de abandonar tudo isso é torturante. Só é alcançada depois de muita procura de alma e exame da realidade. Não há somente o ato de deixar. Há também o de encarar inúmeras incertezas à procura de uma nova vida. E como será essa nova vida?
Minha decisão de desertar teve suas raízes na revolução pela qual lutei. As sementes foram plantadas durante alguns anos. Cresceram e floresceram em Paris. As revoluções devoram seus filhos. Elas podem também traí-los. Provavelmente a maioria dos cubanos simpatizava com a revolução em seus estágios iniciais. Muitos se viraram contra quando ela mudou seu curso de liberdade para o comunismo e demagogia para ditadura.
Participei da Revolução de 26 de Julho, mas sem ideologias estrangeiras na mente, comunismo e tudo o mais sobre o internacionalismo proletário. Enquanto eu cresci com a revolução, pude observar o processo revolucionário. Quando lutei em Escambray e na praia Girón eu não era um fanático que fazia as coisas porque assim ordenavam, sem ver a realidade do assunto. Alguns amigos meus, entre eles os que não simpatizavam com a revolução, contaram-me as atitudes arbitrárias que foram cometidas no processo revolucionário. A princípio, pensei que esses atos eram erros de extremistas que conseguiram entrar na revolução. Mas, com o prosseguimento da revolução e desses atos, percebi que eles estavam mais difundidos e que faziam parte do processo em si. As pessoas que criticavam a revolução eram maltratadas, assim como as que viam a revolução mudar seu caráter, pois estavam traindo os princípios pelos quais lutavam. Dizia-se que aqueles que criticavam eram elementos “estrangeiros”, talvez recrutados pela Inteligência estrangeira. Se alguém tinha opiniões contrárias às de Fidel, isso já era suficiente para rotulá-lo membro da CIA, como um contra-revolucionário e então não era mais tratado como um ser humano, mas como um inimigo político. Um indesejável. Uma pessoa que deveria ser afastada. Qualquer um que estivesse com ela seria visto como um revolucionário fraco.
Toda a fraude, todas aquelas mentiras, todas as promessas que Fidel Castro fez para elevar o nível de vida e trabalhar para o bem social – eu relembrei todas aquelas promessas. Sempre que ele falava que tais coisas seriam realizadas em tal momento, eu relembrava e, quando não eram realizadas, eu sabia que tudo havia sido um logro. Era tudo mentira, inclusive no que se referia a elevar o nível do campo, fazendo desaparecer as diferenças entre ele e a cidade. Quando comecei a entender os planos demagógicos e observava que não eram cumpridos, percebi que as falhas não eram devidas à contra-revolução, sobre a qual caía a culpa. As falhas estavam dentro do próprio sistema. Eu era uma parte do processo revolucionário e percebi que os defeitos vinham de dentro, eram uma doença do sistema, e não culpa de elementos estrangeiros.
Durante 1962 – ano da crise dos mísseis – com o bloqueio contra Cuba, até mesmo as mercadorias básicas se escassearam. O governo mobilizou milhares e milhares de trabalhadores para fazerem um serviço voluntário nos campos para a colheita de cana e outros produtos. Apesar de, às vezes, essa massa trabalhadora ter dado maus resultados – quando, por exemplo, ceifadores amadores estragaram a cana – o resultado geral foi muito bom e o nível alimentício poderia se elevar. Falaram-nos que todo aquele esforço, todo o sacrifício, o produto daquele trabalho seria usado em benefício do povo. Mas então vimos que não estava ajudando o povo, pois havia uma política inclemente de exportação. Noventa por cento dos produtos estavam sendo enviados para o exterior, sem se importarem com o fato de que o povo cubano precisava comer e vestir. Houve restrições, racionamentos, pedidos de mais sacrifício e proclamações de imensas recompensas, grandes resultados para o povo, um futuro maravilhoso. Comecei a entender que tudo fazia parte do sistema internacional comunista, e essa era a única maneira de fazer o povo trabalhar. A esperança devia ser sempre mantida.
Fiquei desiludido. Quando fui ao campo vi os campesinos mais famintos, suas roupas rasgadas e não havia um futuro claro para eles. Eu podia ver a grande decepção que estava sendo causada pelo comunismo.
A realidade era completamente diferente dos relatórios. As revistas cubanas, as publicações enviadas para o exterior, comentavam o progresso da revolução como se ela beneficiasse o povo cubano. A propaganda ia para a América Latina, para o mundo, apresentando a revolução cubana como algo magnífico, diferente dos processos revolucionários que ocorreram em outros lugares.
Havia aquela famosa reforma agrária. O governo anunciou pomposamente que as terras seriam distribuídas e seriam usadas em benefício do povo. Houve muita propaganda em torno da reforma. Livros foram publicados e tornaram-se o cataclismo dos revolucionários. Todos os meios de difusão de Cuba falavam sobre a reforma agrária, que seria uma das mais altruístas medidas da revolução. Seria um bem tremendo. Mas, então, o governo tomou as terras, os campesinos foram forçados a vendê-las. O camponês foi agarrado pelo pescoço, a terra foi tomada, acabou a propaganda, nada mais se falou e nada mais foi publicado.
Eu era parte do sistema. Muitos de nós lutaram por algo diferente e agora não estávamos interessados em perguntas. Havíamos lutado, vencido e queríamos gozar. Queríamos subir dentro do sistema, adquirir posições importantes, sem nos preocuparmos com o infortúnio do povo.
Será que eu desejava que meus filhos crescessem em tal sociedade?
Quando chega o despertar da consciência? Amigos meus foram presos, suas terras tomadas arbitrariamente. Eles eram boas pessoas, honradas e em toda a vida fizeram um trabalho honesto.
Eu sabia que era um instrumento do sistema, daquela monstruosidade, daquela decepção. Eu não participava dele por fanatismo, mas porque fui levado e não resisti. Assim, eu não podia fechar os olhos ao que se apresentava a mim, as ocorrências de que não gostava, os defeitos aparentes, as coisas ruins que eu via. Quando eu me preparava para servir em Paris, estava provavelmente em meu subconsciente que eu romperia com a revolução. Em Paris havia todos aqueles oficiais que personificavam a fraude, todas as falsidades da revolução. Homens que só queriam subir, que não se importavam nem um pouco com as calamidades do povo. Eles estavam cegos ou se faziam de cegos à realidade.
Qual a gota d’água que entorna o copo? O Centro recebeu a comunicação de que uma política austera estava sendo levada em Cuba, e que dela deveríamos também participar. Essa participação seria a devolução da parte do salário dispensável para se viver. Recebemos ordem de cortar certos hábitos: se bebíamos vinho no jantar, deveríamos dispensá-lo deveríamos privar-nos da sobremesa nas refeições.
No outono de 1968, um plano foi anunciado na embaixada, com o fim de estabelecer um círculo infantil para as crianças. Ao invés de freqüentarem as escolas francesas, as crianças estudariam e brincariam no círculo, onde receberiam uma educação revolucionária adequada. As esposas do pessoal da embaixada trabalhariam no círculo.
O plano era comandado por Cordelia Navarro, ligada à UNESCO, e que estava visitando Paris. Cordelia convocou uma reunião com as esposas e lhes disse que o círculo lhes proveria um “serviço revolucionário”. Aquelas que pudessem ensinar, ensinariam aquelas que pudessem cozinhar, cozinhariam. A participação era “voluntária”, mas todo o mundo deveria participar.
Essa talvez tenha sido a gota d’água que entornou o copo. O meu e o da minha mulher, pois tínhamos dois filhos pequenos”.
Orlando Castro Hidalgo, sua mulher e dois filhos, auxiliados por um casal amigo, saíram clandestinamente de Paris para Luxemburgo, onde entraram em contato com a embaixada dos EUA, viajando a seguir para os EUA, país em que vivem até hoje. Em sua bagagem, Hidalgo levou centenas de documentos secretos do Escritório da DGI em Paris.
Carlos I. S. Azambuja
em 15 de julho de 2004
Resumo: Os motivos que levaram um importante funcionário do serviço de inteligência cubano a desertar.
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