domingo, 11 de abril de 2010

Acuado, Obama flerta com populismo

Presidente reage à queda de popularidade valorizando suas poucas afinidades com os ''americanos autênticos''

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Em um discurso recente em Ohio, o presidente Barack Obama usou a palavra "lutar" mais de 20 vezes. "Nunca vou deixar de lutar para dar a nossas crianças a melhor educação", disse, combativo. Frequentemente, Obama tem se referido aos banqueiros como "os gatos gordos da banca", diz que vai combater "os interesses dos poderosos" que ameaçam "afogar as vozes dos americanos comuns".

Com sua taxa de aprovação em apenas 50% e sofrendo para avançar com sua agenda legislativa depois da derrota emblemática no Massachusetts (os democratas perderam a vaga do senador Ted Kennedy para o republicano Scott Browen), Obama abandonou seu estilo cerebral e comedido e adotou uma posição mais populista.

Para defender-se da irritação popular com o resgate dos bancos e alta do desemprego, Obama afiou suas críticas às instituições financeiras e Wall Street, transformando-se no paladino da classe média. E anunciou uma série de medidas para pôr os bancos na linha e criar empregos em pequenas empresas.

Mas, para alguns especialistas, esse estilo "neopopulista" pode acabar saindo pela culatra. "Obama é um yuppie e por isso tem tanta dificuldade para conectar-se com a classe média trabalhadora", diz John Judis, editor sênior da revista The New Republic e pesquisador do Carnegie Endowment for International Peace.

Apesar de ter a história de vida sofrida e de ser o primeiro presidente negro nos EUA, Obama vem da elite intelectual do país. Estudou direito em Harvard, foi professor na Universidade de Chicago, sua mãe era antropóloga e seu pai, economista. A avó que o criou era vice-presidente de um banco no Havaí. Ou seja, não se trata de um passado operário ou de classe média. E assumir uma identidade de "povão" pode ser arriscado. "Não é natural para Obama ser populista."

É como o ex-presidente e acadêmico Fernando Henrique Cardoso, que andou de jegue e comeu buchada de bode para provar seu "lado povão". E acabou ridicularizado por isso. "Obama estava muito mais à vontade em sua entrevista para a Bloomberg, explicando como seu governo não é hostil aos bancos", disse Judis, referindo-se a uma entrevista que Obama concedeu nesta semana, amenizando seu antagonismo a Wall Street.

HERANÇA MALDITA

Em pouco mais de um ano no poder, a popularidade do presidente despencou de 70% para 50%. A economia e o desemprego em dois dígitos são certamente o principal motivo para a frustração do eleitorado, diz Judis. Mas há algo mais.

Aumentou o fosso que separa Obama, o acadêmico de Harvard, dos chamados "americanos autênticos". Cresceu a dificuldade de ele se conectar com a grande massa trabalhadora do país e também com os idosos - e por isso a Casa Branca preparou a ofensiva populista.

Obama já teve grandes dificuldades para conquistar esse eleitorado durante a campanha. Depois de seu primeiro ano de governo, essa fatia da população parece estar ainda mais ressentida.

Obama herdou um caos econômico em seu primeiro ano e teve de resgatar bancos, montadoras e seguradoras. Ao mesmo tempo, as negociações sobre a lei de reforma de saúde ocorreram a portas fechadas, com vários acordos com a indústria farmacêutica, que deixaram americanos desconfiados.

Muitos que têm plano de saúde acham que vão perder benefícios para sustentar imigrantes ilegais e outros que não têm assistência médica.

Resultado: Obama acabou sendo visto como amigo dos bancos e dos ricos. Uma pesquisa Rasmussen do dia 8 mostra que 75% dos americanos estão "bravos" ou "muito bravos" com o governo Obama.

Para o sociólogo Todd Gitlin, professor da Universidade Columbia, Obama elegeu-se com uma plataforma progressista - de apelo à razão, de reformas elevadas, pós-partidário. Agora, está pendendo mais para seu lado populista, de identificar-se com a classe média oprimida e lutar contra os fortes.

"A força de Obama para mobilizar as massas começou a ficar prejudicada no meio do ano passado, com a ascensão do Tea Party (movimento anti-Obama) e manifestações nas assembleias de discussão da reforma de saúde", disse ao Estado Gitlin. "Agora, ele precisa criar um novo centro de gravidade. Mas precisa fazer mais do que só mudar seu vocabulário para persuadir as pessoas de que está do lado delas."

ROOSEVELT A CLINTON

Ser originário da elite intelectual não é um obstáculo intransponível para Obama na sua busca de um elo com as classes trabalhadoras, crê Gitlin. "Ele poderia ser até aristocrático, como Franklin D. Roosevelt, que não tinha nada popularesco, mas conseguiu criar empatia com os americanos."

Bill Clinton é outro bom exemplo dessa guinada, diz Judis. Ele governou seu primeiro ano como bolsista Rhodes e advogado formado em Yale. Depois, conseguiu se transformar e enfatizar sua infância modesta e seu governo no Arkansas, em contato com o "americano autêntico". Ficou famosa sua frase "eu sinto sua dor", que ele disse a um ativista em busca de mais recursos para o combate à aids. "Os grandes políticos, como os ex-presidentes (Ronald) Reagan e Clinton, conseguem adequar sua mensagem a diferentes público, conseguem se reinventar", diz Judis. Segundo ele, esses líderes transcendem suas origens sociais. "Ainda acho que Obama pode fazer isso."

Patrícia Campos Mello

Publicado no Estadão

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