quarta-feira, 20 de maio de 2009

A DINASTIA DO CÁLICE (O Santo Graal)

 imagesA luz dos manuscritos Nag Hammadi, a possibilidade de uma linhagem sanguínea descendente de Jesus nos pareceu mais plausível. Alguns dos chamados Evangelhos Gnósticos eram potencialmente tão verdadeiros e autênticos quanto os livros do Novo Testamento. Como conseqüência, os fatos que eles, explícita ou implicitamente, testemunharam - um substituto na cruz, uma disputa entre Pedro e Madalena, um casamento entre Madalena e Jesus, o nascimento de um "filho do Filho do homem" - não podiam ser desprezados, por mais controvertidos que fossem. Estávamos lidando com história, não com teologia. E a história, no tempo de Jesus, não era menos complexa, multifacetada e orientada para o pragmatismo do que é hoje.

A rixa entre Pedro e Madalena, nos Manuscritos Nag Hammadi, aparentemente testemunham o conflito que havíamos incluído em nossa hipótese, o conflito entre os "seguidores da mensagem" e os "seguidores da linhagem". Os primeiros finalmente emergiram vitoriosos e moldaram o curso da civilização ocidental. Graças ao monopólio que passaram a ter, de forma crescente, sobre o conhecimento, a comunicação e a documentação, restaram poucas evidências de que a família de Jesus um dia existiu. Menos ainda restou para estabelecer uma ligação entre a família e a dinastia merovíngia.

Isto não quer dizer que os "seguidores da mensagem" tenham feito sempre exatamente o que queriam fazer. Se os dois primeiros séculos da história cristã foram contaminados por heresias não reprimidas, os séculos que se seguiram o foram ainda mais. Enquanto a ortodoxia se consolidava - teologicamente sob Irenaeus, politicamente sob Constantino - as heresias continuaram a proliferar em uma escala sem precedentes.

Por mais que diferissem em detalhes teológicos, as heresias mais importantes partilhavam fatores cruciais. A maior parte delas era essencialmente gnóstica ou influenciada pelo gnosticismo. Elas repudiavam a estrutura hierárquica de Roma e exaltavam a supremacia da iluminação pessoal sobre a fé. A maioria delas era também, de um modo ou de outro, dualista e considerava o bem e o mal mais como assuntos de importância cósmica do que como problemas éticos pertencentes a este mundo. Finalmente, a maior parte delas considerava Jesus mortal, nascido através de um processo natural de concepção - um profeta, inspirado divinamente talvez, mas não intrinsecamente divino, que podia ou não ter morrido na cruz.

Em sua ênfase na humanidade de Jesus, muitas das heresias se referiam à augusta autoridade de São Paulo, que em Romanos (1:3) falava de "Jesus Cristo Nosso Senhor, que foi feito da linhagem de Davi, segundo a carne".

Talvez a heresia mais famosa e profundamente radical tenha sido o maniqueísmo, essencialmente uma fusão do cristianismo gnóstico com partes das tradições zoroastriana e mitraica. Ele foi fundado por um homem chamado Mani, que nasceu perto de Bagdá em 214 d.C., de uma família relacionada com a casa real persa. Quando jovem, Mani foi introduzido por seu pai em uma seita mística – provavelmente gnóstica - que enfatizava a ascese e o celibato, praticava o batismo e usava roupas brancas. Por volta do ano 240, Mani começou a propagar seus próprios ensinamentos e, como Jesus, ficou famoso por suas curas espirituais e seus exorcismos. Seus seguidores o proclamaram "o novo Jesus" e até mesmo lhe atribuíram um nascimento a partir de uma virgem - um pré-requisito para deidades na época. Ele também foi chamado salvador, apóstolo, iluminador, senhor, levantador dos mortos, piloto e navegador.

As duas últimas designações são especialmente sugestivas, pois podem ser substituídas por Nautonnier, o título oficial assumido pelo grão-mestre  do Monastério do Sinai. Segundo historiadores árabes posteriores, Mani produziu muitos livros, nos quais afirmava revelar segredos que Jesus havia mencionado de forma obscura e oblíqua. Ele considerava Zaratustra, Buda e Jesus como seus predecessores e declarava que havia recebido a mesma iluminação que eles, da mesma  fonte. Seus ensinamentos consistiam de um dualismo gnóstico casado com um edifício cosmológico imponente e elaborado. Perpassando tudo havia o conflito universal entre luz e escuridão, e o mais importante campo de batalha para estes dois princípios opostos era a alma humana. Da mesma forma que os cátaros, Mani defendia a doutrina da reencarnação. Também como os cátaros, insistia numa classe de iniciados, "um eleito iluminado". Referia-se a Jesus como o "filho da viúva", uma frase apropriada depois pela maçonaria.

Ao mesmo tempo, declarava Jesus mortal - ou, se divino, somente em um sentido simbólico ou metafórico, em virtude da iluminação. E Mani, como Basilides, sustentava que Jesus não morrera na cruz, mas fora substituído por alguém.

Em 276 d.C., por ordem do rei, Mani foi aprisionado, torturado até a morte, escalpelado e decapitado. Talvez para impedir a ressurreição, seu corpo mutilado foi colocado à mostra para o público. Mas seus ensinamentos ganharam com o martírio. Santo Agostinho foi um dos seus seguidores, pelo menos por algum tempo. O maniqueísmo se espalhou com extraordinária rapidez através do mundo cristão. A despeito das tentativas ferozes de suprimi-lo, conseguiu sobreviver para influenciar estudiosos posteriores e persistir até os dias atuais. Na Espanha e no sul da França as escolas maniqueístas foram particularmente ativas. Na época das Cruzadas estas escolas forjaram ligações com outras seitas maniqueístas da Itália e da Bulgária. Hoje parece improvável que os cátaros tenham sido fruto dos bogomil búlgaros; as pesquisas mais recentes sugerem que eles surgiram das escolas maniqueístas estabelecidas anteriormente na França. Em todo caso, a Cruzada Albigense foi essencialmente uma Cruzada contra o maniqueísmo. E, apesar dos reiterados esforços de Roma, a palavra "maniqueísmo" sobreviveu, com suas derivações, para tornar-se parte de nossa língua e nosso vocabulário.

Além do maniqueísmo houve, é claro, numerosas outras heresias. De todas elas, a heresia de Arius representou a maior ameaça à doutrina ortodoxa cristã durante os primeiros mil anos de sua história. Arius foi um presbítero em Alexandria por volta de 318, tendo morrido em 335.

Sua disputa com a ortodoxia era bastante simples e se baseava em uma única premissa: Jesus era completamente mortal, não era divino, e não era mais que um professor inspirado.

Ao postular um único onipotente e supremo Deus - um Deus que não encarnou, não sofreu humilhação e morte nas mãos de sua criação - Arius embebeu o cristianismo de uma moldura essencialmente judaica. Residente em Alexandria, com efeito, ele bem pode ter sido influenciado pelos ensinamentos judaicos, como os dos ebionitas. Ao mesmo tempo, o deus supremo do arianismo tinha um campo favorável no Ocidente. Como o cristianismo adquirira um poder secular crescente, tal deus se tornou cada vez mais atraente. Reis e potentados podiam se identificar mais facilmente com um Deus do que com uma deidade frágil e passiva que se submetera sem resistência ao martírio e se omitira do contato com o mundo.

Embora o arianismo tenha sido condenado no Concílio de Nicea em 325, Constantino havia sido sempre simpático a ele e se tornou ainda mais no final de sua vida. Com sua morte, Constâncio, seu filho, e sucessor, tornou-se ostensivamente ariano; e sob a égide deste foram organizados concílios que determinaram o exílio dos líderes da Igreja Ortodoxa. Por volta de 360 o arianismo havia deslocado o cristianismo romano. Embora ele tenha sido novamente condenado em 381, continuou a crescer e a ganhar adeptos. Quando os merovíngios ganharam o poder no século V, praticamente todos os bispados da cristandade eram arianos ou estavam vagos.

Os godos estavam entre os mais fervorosos devotos do arianismo, ao qual se haviam convertido a partir do paganismo, durante o século IV. Os suevis, os lombardos, os alanos, os vândalos, os burgundianos e os ostrogodos eram todos arianos. Da mesma forma o eram os visigodos que, ao saquearem Roma em 480, pouparam as igrejas cristãs. Se os primeiros merovíngios, anteriores a Clóvis, eram receptivos ao cristianismo, tratava-se do cristianismo ariano de seus vizinhos, os visigodos e os burgundianos. Sob os auspícios dos visigodos, o arianismo tornou-se a forma dominante do cristianismo na Espanha, nos Pirineus e no que é hoje o sul da França. Se a família de Jesus realmente encontrou refúgio na Gália, seus senhores, por volta do século V, eram os visigodos arianos. Sob regime ariano, a família provavelmente não teria sido perseguida. É provável que ela tenha sido bem considerada e tenha se ligado,via casamentos, à nobreza visigoda, antes de se ligar aos francos para produzir a linhagem merovíngia. Com o patrocínio e a proteção dos visigodos, ela teria se mantido segura contra todas as ameaças de Roma. Assim, não é de se surpreender que nomes evidentemente semitas - Bera, por exemplo - ocorram na aristocracia e na nobreza visigodas.

Dagobert II casou-se com uma princesa visigoda cujo pai se chamava Bera. O nome Bera aparece repetidamente na genealogia visigodamerovíngia descendente de Dagobert II e Sigisbert IV.

A Igreja Romana teria declarado que o filho de Dagobert se convertera ao arianismo, e isto não teria sido extraordinário. Apesar do pacto entre a Igreja e Clóvis, os merovíngios sempre haviam sido simpatizantes do arianismo. Um dos netos de Clóvis, Chilperic, não fazia segredo de suas tendências arianas.

Se o arianismo não foi inimigo do judaísmo, tampouco o foi do islamismo, que despontou meteoricamente no século VII. A imagem ariana de Jesus não discordava daquela do Alcorão. Jesus é mencionado no Alcorão mais de 35 vezes, sob uma variedade de denominações impressionante, incluindo Mensageiro de Deus e Messias. Mas em nenhum ponto ele é considerado algo além de um profeta mortal, um antecessor de Maomé e porta-voz de um único Deus supremo. Da mesma forma que Basilides e Mani, o Alcorão afirma que Jesus não morreu na cruz: "Eles não o mataram, nem o crucificaram, mas eles pensaram tê-lo feito." O Alcorão não explicita esta afirmação ambígua, mas comentaristas muçulmanos, sim. De acordo com a maioria deles, houve um substituto, tido geralmente, embora nem sempre, como sendo Simão de Cyrene. Alguns escritores muçulmanos descrevem Jesus se escondendo em um nicho de uma parede e assistindo à crucificação de um doublé - o que harmoniza com o fragmento já citado dos Manuscritos Nag Hammadi.

O Judaísmo e os Merovíngios

Vale a pena ressaltar a tenacidade com a qual a maioria das heresias, e especialmente o arianismo, insistiu na mortalidade e humanidade de Jesus, mesmo diante da mais vigorosa perseguição. Não encontramos, entretanto, qualquer indicação de que eles possuíssem um conhecimento de primeira mão das premissas às quais aderiam de forma tão persistente. E havia ainda menos evidências, afora os Manuscritos Nag Hammadi, que sugerissem o conhecimento de uma possível linhagem. É possível, é claro, que alguns documentos existissem - documentos semelhantes aos Manuscritos Nag Hammadi, talvez até genealogias e arquivos. A própria violência da perseguição romana poderia bem sugerir um medo de tal evidência e um desejo de assegurar que ela nunca viesse à luz.

As heresias, então, nos forneciam uma confirmação não decisiva de uma conexão entre a família de Jesus e os merovíngios, que apareceram no cenário mundial uns quatro séculos depois. Para confirmar isto, fomos obrigados a procurar alhures - e voltamos aos merovíngios. As evidências pareciam escassas à primeira vista. Já havíamos considerado o nascimento lendário de Mérovée, por exemplo - filho de dois pais, um dos quais seria uma misteriosa figura aquática de além-mar - e havíamos adivinhado que esta fábula curiosa podia representar a intenção de refletir e ocultar uma aliança dinástica ou casamento. O simbolismo do peixe era sugestivo, mas não conclusivo. Da mesma forma, o pacto posterior entre Clóvis e a Igreja Romana fazia mais sentido à luz do nosso cenário; mas o pacto em si não constituía uma evidência concreta. E embora o sangue real merovíngio fosse considerado de natureza sagrada, milagrosa e divina, não estava explícito em nenhum lugar que esse sangue era, na realidade, o de Jesus.

Na ausência de um testemunho decisivo ou conclusivo, tivemos que proceder com cuidado, avaliando fragmentos de evidências circunstanciais e tentando reunir estes fragmentos em um quadro coerente. Primeiro, tivemos que determinar se houve influências apenas judaicas nos merovíngios.

Os reis merovíngios não parecem ter sido anti-semitas. Ao contrário, parecem ter sido não só tolerantes com os judeus, mas simpatizantes com os que havia em seus territórios - apesar dos protestos reiterados da Igreja Romana. Casamentos mistos eram freqüentes. Muitos judeus, especialmente no sul, possuíam grandes lotes de terras, escravos e serventes cristãos. E muitos atuavam como magistrados e administradores de alto escalão para seus senhores merovíngios. Em geral, a atitude dos merovíngios em relação ao judaísmo parece ter sido sem paralelo na história ocidental anterior à reforma luterana.

Os próprios merovíngios acreditavam que seu poder milagroso era devido, em grande parte, aos seus cabelos, que eram proibidos de cortar. Sua posição quanto a este assunto era idêntica àquela dos nazoritas no Velho Testamento, dos quais Sansão era um membro.

Existem muitas evidências que sugerem que Jesus também era um nazorita. Segundo os primeiros escritores da Igreja e também os estudiosos modernos, seu irmão, São Jonas, certamente o era.

Na casa real merovíngia, e nas famílias a ela ligadas, havia um número surpreendente de nomes judeus. Um irmão do rei Clotaire II, por exemplo, era chamado Sansão. Depois, um certo Miron "o Levita" foi conde de Bésalou e bispo de Gerona. Um conde de Roussilon era chamado Salomão, e outro Salomão tornou-se rei da Grã-Bretanha. Houve um abade Elisachar, uma variante de Eleazar e de Lazarus. E o próprio nome Mérovée pode ter origem no Oriente Médio.

Nomes judaicos se tornaram cada vez mais proeminentes através de casamentos dinásticos entre merovíngios e visigodos. Tais nomes figuram na nobreza e na realeza visigodas; e é possível que muitas das chamadas famílias "visigodas" fossem, na realidade, judaicas.

Esta possibilidade ganha mais crédito a partir do fato de que cronistas freqüentemente usavam as palavras "godo" e "judeu" intercaladamente. O sul da França e as bordas da Espanha - a região conhecida como Septimania nas épocas merovíngia e carolíngia - abrigavam uma população judia extremamente grande. Esta região também era conhecida como Gothie ou Gothia, e seus habitantes judeus eram freqüentemente chamados goths - um erro que, em algumas ocasiões, pode ter sido deliberado. Por causa dele, os judeus não podiam ser identificados como tal, salvo talvez pelos nomes de família específicos. O sogro de Dagobert era chamado Bera, um nome semita. E a irmã de Bera era casada com um membro de uma família chamada Levy.

Nomes e uma atitude mística em relação aos próprios cabelos não eram bases sólidas para se estabelecer uma conexão entre os merovíngios e o judaísmo. Mas havia outros fragmentos de evidência mais persuasivos. Os merovíngios eram a dinastia real dos francos, uma tribo teutônica que aderia à lei tribal teutônica. No final do século V esta lei, codificada e redigida dentro de uma moldura romana, tornou-se conhecida como Lei Sálica. Em suas origens, entretanto, a Lei Sálica era em última instância uma lei tribal teutônica que precedeu o advento do cristianismo romano na Europa Ocidental.

Durante os séculos que se seguiram ela continuou a se impor, em oposição à lei eclesiástica promulgada por Roma. Durante a Idade Média ela era a lei secular oficial do Sacro Império Romano. Até a Reforma luterana os camponeses alemães e os cavaleiros, descontentes com a Igreja, acusavam-na de desrespeitar a tradicional Lei Sálica.

Toda uma seção da Lei Sálica - Título 45, De Migrantibus – tem intrigado pesquisadores e comentaristas, e tem sido a fonte de um incessante debate. Trata-se da complicada seção que define as circunstâncias nas quais pessoas itinerantes podem estabelecer residência e receber a condição de cidadãos. Curiosamente, ela não é de origem teutônica, e escritores têm sido conduzidos a postular hipóteses estranhas para explicar sua inclusão na Lei Sálica.

Recentemente se descobriu que esta seção do código sálico deriva diretamente da lei judaica. Mais especificamente, sua origem pode ser traçada até uma seção do Talmud. Assim, pode-se dizer que a Lei Sálica, pelo menos em parte, deriva diretamente da lei judaica tradicional. E isto sugere que os merovíngios - sob os auspícios dos quais a Lei Sálica foi codificada eram não somente versados na lei judaica como tinham acesso a textos judaicos.

O Principado em Septimania

Tais fragmentos eram provocantes, mas angariavam um suporte muito tênue para nossa hipótese de que uma linhagem descendente de Jesus existiu no sul da França, de que esta linhagem se cruzou com a merovíngia e de que, como conseqüência, os merovíngios eram parcialmente judeus. A época merovíngia não nos forneceu qualquer evidência conclusiva, mas a época seguinte o fez. Nossa hipótese se tornou subitamente confiável por meio dessa evidência retroativa.

Já havíamos explorado a possibilidade de a linhagem merovíngia ter sobrevivido após ter sido deposta de seus tronos pelos carolíngios.

No processo, havíamos encontrado um principado autônomo que existiu no sul da França por um século e meio, tendo sido governado pelo famoso Guillem de Gellone, um dos heróis mais reverenciados de seu tempo. Protagonista de Willehalm, de Wolfram Von Eschenbach, ele teria sido ligado à família do cálice. Foi em Guillem e no cenário à sua volta que encontramos nossa mais surpreendente evidência.

Guillem de Gellone, no ápice de seu poder, incluía entre seus domínios o nordeste da Espanha, os Pirineus e a região sul da França, conhecida como Septimania, área que abrigava uma grande e antiga população judaica. Durante os séculos VI e VII esta população havia mantido relações extremamente cordiais com seus senhores visigodos, que esposavam o cristianismo ariano. Casamentos mistos  eram comuns, e as palavras godo e judeu eram utilizadas como sinônimos.

Entretanto, por volta de 711 a situação dos judeus na Septimania e no nordeste da Espanha havia se deteriorado. Naquele tempo, Dagobert II tinha sido assassinado e sua linhagem obrigada a se esconder em Razès, a região que inclui e circunda Rennes-Ie-Château. E embora ramos colaterais ainda ocupassem o trono no norte, o único poder real estava, nas mãos dos chamados mayors do palácio - os usurpadores carolíngios que, com sanção e suporte de Roma, começaram a estabelecer sua própria dinastia. Naquele tempo também, os próprios visigodos se haviam convertido ao cristianismo romano e começavam a perseguir os judeus em seus domínios. Assim, quando a Espanha visigoda foi tomada pelos mouros em 711, os judeus acolheram com alegria os invasores.

Os judeus gozaram de uma existência promissora sob o domínio muçulmano. Os mouros eram generosos com eles, colocando-os freqüentemente em postos administrativos nas cidades capturadas, como Córdoba, Granada e Toledo. O comércio e os negócios judeus foram encorajados e atingiram uma nova prosperidade. O pensamento judaico coexistia, lado a lado, com o islamismo, e um fertilizava o outro. E muitas cidades - incluindo Córdoba, a capital moura da Espanha - possuíam uma população predominantemente judia.

No início do século VIII os mouros cruzaram os Pirineus na direção da Septimania. E de 720 até 759 - enquanto o neto e o bisneto de Dagobert continuavam sua existência clandestina em Razès - Septimania ficou nas mãos dos muçulmanos, tornando-se um principado mouro independente, com sua própria capital em Narbonne, que devia uma fidelidade apenas nominal ao emir de Córdoba. De Narbonne, os mouros da Septimania começaram a avançar na direção do norte, capturando cidades até nos territórios francos.

O avanço dos mouros foi percebido por Charles Martel, mayor do palácio e avô de Carlos Magno. Por volta de 738, Charles tinha enviado os mouros de volta a Narbonne, onde ele então os cercou.

Defendida por mouros e judeus, Narbonne se mostrou impenetrável. Charles compensou sua frustração devastando os arredores.

Por volta de 752 o filho de Charles, Pepin, tinha formado alianças com os aristocratas locais, conseguindo assim assumir o controle de Septimania. Contudo, Narbonne continuou a resistir, suportando um cerco de sete anos das forças de Pepin. A cidade era um espinho doloroso para Pepin, numa época em que lhe era urgente consolidar sua posição. Ele e seus sucessores foram muito sensíveis às acusações de terem usurpado o trono merovíngio. Para estabelecer sua legitimidade, ele forjou alianças dinásticas com famílias merovíngias sobreviventes, que possuíam sangue real. E, para validar sua condição, organizou sua coroação de modo que ela fosse singularizada pelo ritual bíblico da unção, pelo qual a Igreja assumia a prerrogativa de criar reis. Mas havia ainda um outro aspecto do ritual de unção. Segundo estudiosos, a unção era uma tentativa de sugerir que a monarquia dos francos era uma réplica, ou mesmo a continuação, da monarquia judaica do Velho Testamento. Isto, em si, é extremamente interessante. Por que desejaria Pepin, o usurpador, legitimar-se por meio de uma referência bíblica? A menos que a dinastia deposta por ele - a merovíngia - tivesse sido legitimada da mesma forma.

Em todo caso, Pepin foi confrontado com dois problemas: a resistência tenaz de Narbonne e a questão de estabelecer sua própria legitimidade como rei através de um precedente bíblico. Como demonstrou o professor Arthur Zuckerman, da Universidade de Columbia, ele resolveu os dois problemas através de um pacto com a população judia de Narbonne, em 759. Segundo este pacto, Pepin receberia o endosso judeu para sua pretensão à sucessão bíblica;  também receberia a ajuda dos judeus contra os mouros. Em troca, concederia aos judeus da Septimania um principado e um rei próprios.

Em 759 a população judia de Narbonne voltou-se subitamente contra os defensores muçulmanos da cidade, atacando-os e abrindo os portões da fortaleza para os francos. Logo depois os judeus reconheceram Pepin como seu senhor e validaram sua pretensão a uma sucessão bíblica legítima. E Pepin manteve sua parte na barganha. Em 768 foi criado um principado na Septimania – um principado judeu, que devia uma fidelidade nominal a Pepin mas era essencialmente independente. Um governante foi oficialmente instalado como rei dos judeus. Nos romances ele é chamado Aymery, mas segundo os registros existentes ele parece ter tomado o nome de Theodoric, ou Thierry, ao ser recebido nas fileiras da nobreza franca.

Theodoric, ou Thierry, pai de Guillem de Gellone, era reconhecido, tanto por Pepin quanto pelo califa de Bagdá, como "a semente da casa real de Davi".

Como já havíamos descoberto, os estudiosos modernos não conhecem precisamente as origens de Theodoric. Segundo a maioria dos pesquisadores ele era um descendente merovíngio. Segundo Arthur Zuckerman ele seria nativo de Bagdá, um "exilado", descendente de judeus que viviam na Babilônia. Também é possível que o "exilado" de Bagdá não fosse Theodoric. É possível que o "exilado" tenha vindo de Bagdá para consagrar Theodoric e que registros subseqüentes tenham confundido os dois. O professor Zuckerman menciona uma afirmação curiosa, a de que os "exilados do oeste" eram de "sangue mais puro" que os do leste.

Quem foram os "exilados do oeste", se não os próprios merovíngios? Por que um descendente merovíngio seria reconhecido como rei dos judeus, governante de um principado judeu e "semente da casa real de Davi", a menos que os merovíngios fossem, na verdade, parcialmente judeus? Após a cumplicidade da Igreja no assassinato de Dagobert e sua traição do pacto ratificado com Clóvis, os merovíngios sobreviventes podem muito bem ter repudiado qualquer aliança com Roma e retornado ao que era sua fé anterior. Suas ligações com essa fé teriam sido de qualquer modo reforçadas pelo casamento de Dagobert com a filha de um príncipe evidentemente visigodo, que possuía o nome claramente semita de Bera.

Theodoric, ou Thierry, consolidou ainda mais sua posição, e Pepin também, através de um casamento conveniente com a irmã deste último, Alda, tia de Carlos Magno. Nos anos que se seguiram, o reino judeu da Septimania gozou de uma existência próspera. Foi ricamente agraciado com territórios concedidos pelos monarcas carolíngios.

Ganhou até lotes de terras que pertenciam à Igreja, apesar dos protestos vigorosos do papa Estevão III e de seus sucessores.

O filho de Theodoric, rei dos judeus da Septimania, foi Guillem de Gellone, cujos títulos incluíam o de duque de Barcelona, de Toulouse, de Auvergne e de Razès. Assim como seu pai, Guillem não era somente merovíngio, mas também judeu de sangue real. Sangue real reconhecido como da casa de Davi - pelos carolíngios, pelo califa e, embora a contragosto, pelo papa.

Apesar das tentativas subseqüentes de ocultar este fato, a pesquisa moderna provou de forma indiscutível que Guillem era judeu.

Até mesmo nos romances - onde ele aparece como Guillaume, príncipe de Orange - ele é fluente tanto em hebreu quanto em árabe.

O emblema em seu escudo é o mesmo dos "exilados" do leste: o Leão de Judá, a tribo à qual pertence a casa de Davi e, depois, Jesus. Ele tem o codinome "nariz de gancho". E até mesmo durante suas campanhas ele se preocupa em observar o sabbath e a festa judaica dos tabernáculos. Como observa Arthur Zuckerman: O cronista que escreveu o registro original do cerco e da queda de Barcelona registrou eventos de acordo com o calendário judeu... [O] comandante da expedição; duque William de Narbonne e Toulouse conduziu a ação com rigorosa observância dos sabbaths e dias santos judeus. Em tudo isto ele recebeu a compreensão e a cooperação do rei Luis.

Guillem de Gellone tornou-se um dos chamados "pares de Carlos Magno", um autêntico herói histórico que, na mente e tradição populares, ocupava a mesma posição de figuras lendárias como Roland e Olivier. Quando o filho de Carlos Magno, Luís, tornou-se imperador, foi Guillem quem colocou a coroa em sua cabeça. Luís teria dito: "Senhor William (...) foi sua linhagem que criou a minha." É uma afirmação extraordinária, dado o fato de ser dirigida a um homem cuja linhagem, segundo historiadores posteriores, pareceria totalmente obscura.

Guillem foi mais do que um guerreiro. Logo depois de 792 ele criou uma academia em Gellone, importando estudiosos e criando uma biblioteca renomada. Gellone tornou-se rapidamente um centro de estudos judaicos altamente considerado. É exatamente dessa academia que pode ter surgido o "infiel" Flegetanis, o intelectual hebreu descendente de Salomão que, segundo Wolfram, confiou o segredo do cálice sagrado a Kiot de Provence.

Em 806, Guillem retirou-se da vida ativa, confinando-se em sua academia. Lá ele morreu, por volta de 812, e a academia foi mais tarde convertida em um monastério, o hoje famoso Saint-Guilhelm-Ie-Désert. Contudo, mesmo antes da morte de Guillem, Gellone tinha se tornado um dos primeiros locais conhecidos na Europa para o culto a Madalena - que, significativamente, lá floresceu ao mesmo tempo que a academia judaica.

Jesus era da tribo de Judá e da casa real de Davi. Madalena teria levado o cálice - o "sangraal", ou "sangue real" - para a França. E no século VIII havia, no sul da França, um potentado da tribo de Judá e da casa real de Davi, considerado rei dos judeus. Mas ele não era somente um judeu praticante. Era também merovíngio. E no poema de Eschenbach, ele e sua família eram associados ao cálice sagrado.

A Semente de Davi

Nos séculos subseqüentes, fizeram-se tentativas sistemáticas para expurgar dos registros qualquer traço do reino judeu de Septimania. A confusão freqüente entre "godos" e "judeus" parece sugestiva dessa censura. Mas a censura não podia pretender-se inteiramente bemsucedida.

Em 1143, Pedro, o Venerável, de Cluny, dirigindo-se a Luís VII da França, condenava os judeus de Narbonne, que pretendiam possuir um rei entre eles. Em 1114, um monge de Cambridge, Theobald, falava que "os mais importantes príncipes e rabinos dos judeus que existem na Espanha se reúnem em Narbonne, onde reside a semente real". E em 1165-66 Benjamin de Tudela, um famoso viajante e cronista, registrava que em Narbonne existiam "sábios, magnatas e príncipes, à cabeça dos quais está (...) um descendente da casa de Davi, como se vê em sua árvore genealógica."

Mas qualquer semente de Davi existente em Narbonne por volta do século XII seria menos importante do que algumas sementes de outros lugares. As árvores genealógicas se bifurcam, subdividem e produzem verdadeiras florestas. Alguns descendentes de Theodoric e Guillem de Gellone permaneceram em Narbonne, mas outros  obtiveram domínios mais augustos durante os quatro séculos seguintes. Por volta do século XII esses domínios incluíam os mais ilustres da cristandade: Lorraine e o reino franco de Jerusalém.

No século IX a linhagem de Guillem de Gellone havia culminado nos primeiros duques de Aquitânia. Ela se aliou também à casa ducal da Grã-Bretanha. E no século X um certo Hugues de Plantard – um descendente direto de Dagobert e Guillem de Gellone, apelidado de "Narigão" - tornou-se o pai de Eustache, primeiro conde de Bolonha. O neto de Eustache foi Godfroi de Bouillon, duque de Lorraine e conquistador de Jerusalém. E a partir de Godfroi surgiu uma dinastia e uma "tradição real" que, em virtude de haver sido fundada sobre "a rocha de Sinai", era equivalente às outras da França, da Inglaterra e da Alemanha. Se os merovíngios realmente descenderam de Jesus, Godfroi - herdeiro do sangue real merovíngio - recuperou, com a conquista de Jerusalém, sua herança de direito.

Godfroi e a subseqüente casa de Lorraine eram, é claro, nominalmente católicos. Para sobreviver em um mundo então cristianizado, deviam sê-lo. Mas suas origens parecem ter sido conhecidas, pelo menos em alguns setores. No século XVI, Henri de Lorraine, duque de Guise, teria sido recebido por uma multidão exuberante ao entrar na cidade de Joinville, em Champagne. Algumas pessoas teriam cantado Hosannah filio David. Talvez seja importante que este incidente tenha sido recontado na história moderna de Lorraine, publicada em 1966. O trabalho contém uma introdução especial de Otto Von Habsburgo, que hoje detém o título de duque de Lorraine e de rei de Jerusalém.

MICHAEL BAIGENT - RICHARD LEIGH - HENRY LINCOLN

O SANTO GRAAL E A LINHAGEM SAGRADA

Tradução Nadir Ferrari - 1982

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